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sexta-feira, 22 de novembro de 2013











"Não vou mais falar de amor
De dor, de coração, de ilusão
Não vou mais falar de sol
Do mar, da rua, da lua ou da solidão
Meu vício agora é a madrugada
Um anjo, um tigre , um gavião
Que desenho acordada
Contra o fundo azul da televisão
Meu vício agora...
É o passar do tempo
Meu vício agora...
Movimento, é o vento, é voar...é voar
Não vou mais verter
Lágrimas baratas sem nenhum porque
Não vou mais vender
Melôs manjadas de Karaokê
E mesmo assim fico interessante
Não ser o avesso do que eu era antes
De agora em diante ficarei assim...
Desedificante
Meu vício agora...
É o passar do tempo
Meu vício agora...
Movimento, é o vento, é voar... é voar"
(Kid Abelha)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

História de Amor




















"Vieste...
E me falaste de alguém infiel que traíra tua vida,
E a quem deras, no entanto, teu amor...
Vieste, e me falaste a linguagem de fel, da tua alma ferida,
E em teus olhos havia, atormentada e presa, uma imensa tristeza, um profundo amargor...
Quem te viu como eu vi, - a falar a linguagem da suprema amargura,
Da incurável desilusão,
Como quem abatido chega ao fim da viagem
E encontra um velho sonho de ventura em pedaços no chão...
Quem te viu como eu te vi - beirando o precipício e quase em desatino,
Sem saber procurar sequer um novo início para o teu destino...
Vieste... E eu dei-te o abrigo dos meus braços,
Comovi-me e senti meus olhos baços diante da tua dor...
E sem que eu própria saiba como consegui,
Aos poucos, muito aos poucos, dia a dia, eu vi que vencias o infiel, o amargurado amor...
Uma tarde, em que te vi chegar, rindo e chorando,
Numa emotividade que punha em teu olhar imprevisto esplendor
Pensei que nessa tarde enfim eu te pudesse desvendar meu segredo de felicidade
E pedir o teu carinho para o meu amor...
Chegaste... me estendeste a mão e me disseste,
Entre terno e comovido:
"Ah, minha amiga! Nem tu compreenderás todo o bem que me fizeste, agora que afinal posso seguir de novo, radiante, sem perigo...
E entre terno e comovido, silenciaste
E me entregaste a mão...
Era a despedida...
Pior que a despedida: - era a separação...
Num derradeiro gesto impensado, numa alegria louca,
No instante de partir:
Beijaste-me na boca
E te foste a sorrir...
Para quê?
Para que beijaste-me na boca?
Hoje a minha alma sofre
E o meu desejo goza
A angústia dessa lembrança...
Ah, meu amor... O quanto foste louco...
E impiedoso...
E quanto foste criança!"
Poema de J.G. de Araujo Jorge, extraído do livro
"Meu Céu Interior", 1ª edição, 1934

sexta-feira, 30 de setembro de 2011















Quando se fala de amor, muitos usam palavras bélicas, como luta, batalha, conflito. Amar pode ser uma guerrilha diária mesmo.

Isso me faz lembrar os desfiles de veteranos de guerra que a gente vê em filmes, homens uniformizados em suas cadeiras de roda apresentando suas medalhas e também suas amputações. Se o amor e a guerra se assemelham, poderíamos imaginar também um desfile de mulheres sobreviventes desse embate no qual poucos conseguem sair ilesos. Não se perde uma perna ou braço, mas muitos perdem o juízo e alguns até a fé.

Depois de uma certa idade, somos todos veteranos de alguma relação amorosa que deixou cicatrizes. Todos. Há inclusive os que trazem marcas imperceptíveis a olho nu, pois não são sobreviventes do que lhes aconteceu, e sim do que não lhes aconteceu: sobreviveram à irrealização de seus sonhos, que é algo que machuca muito mais. São os veteranos da solidão.

Há aqueles que viveram um amor de juventude que terminou cedo demais, seja por pressa, inexperiência ou imaturidade. Casam-se, depois, com outra pessoa, constituem família e são felizes, mas dói uma ausência do passado, aquela pequena batalha perdida.

Há os que amaram uma vez em silêncio, sem se declararem, e trazem dentro do peito essa granada que não foi detonada. Há os que se declararam e foram rejeitados, e a granada estraçalhou tudo por dentro, mesmo que ninguém tenha notado. E há os que viveram amores ardentes, explosivos, computando vitórias e derrotas diárias: saem com talhos na alma, porém mais fortes do que antes.

Há os que preferem não se arriscar: mantém-se na mesma trincheira sem se mover, escondidos da guerra, mas ela os alcança, sorrateira, e lhes apresenta um espelho para que vejam suas rugas e seu olhar opaco, as marcas precoces que surgem nos que, por medo de se ferir, optaram por não viver.

Há os que têm a sorte de um amor tranquilo: foram convocados para serem os enfermeiros do acampamento, os motoristas da tropa, estão ali para servir e não para brigar na linha de frente, e sobrevivem sem nem uma unha quebrada, mas desfilam mesmo assim, vitoriosos, porque foram imprescindíveis ao limpar o sangue dos outros.

Há os que sofrem quando a guerra acaba, pois ao menos tinham um ideal, e agora não sabem o que fazer com um futuro de paz.

Há os que se apaixonam por seus inimigos. A esses, o céu e o inferno estão prometidos.

E há os que não resistem até o final da história: morrem durante a luta e viram memória.

Todos são convocados quando jovens. Mas é no desfile final que se saberá quem conquistou medalhas por bravura e conseguiu, em meio ao caos, às neuras e às mutilações, manter o coração ainda batendo. (Martha Medeiros)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Noite...














A noite corre solta lá fora... Estou em um quarto de hotel, TV ligada, porém sem som, apenas para espantar a sensação incômda da solidão. Os canais desfilam diante de meus olhos: filmes, documentários, desenhos, futebol... Tanta gente, tanta vida...
Eu, porém, a cada dia estou um pouco mais morta por dentro. E o mais triste é a certeza de que isso não é apenas uma impressão, é REALIDADE... Afinal, ao envelhecermos, não fazemos nada além do que morrer um pouco, dia a dia, célula a célula...
Minhas mãos sobre o teclado mostram linhas finas, que não existiam anos atrás. Vou ao banheiro e evito olhar o espelho. Veria uma estranha, de olhar encovado, cabelos desgrenhados, muito diferente da mulher jovem e atraente que eu vejo pela manhã.
A noite me transforma... A noite e a solidão. São cúmplices nessa tarefa macabra: tornar-me velha, arrancar de mim a vida...
Volto a desfilar os canais na TV... A noite será longa...